quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Moeda ao Ar!

“Não há almoços grátis” é um grande chavão da economia e dos economistas. Na verdade, não há almoços grátis, mas há almoços mais lucrativos que outros. Claro que os economistas ilustres gostam mais é de comer que de servir almoços, então pensam apenas do lado do cliente e esquecem-se da vertente do fornecedor.

Claro que para os empresários da restauração, principalmente aqueles que vendem fiado, isto nem sempre é verdade. Quando acontece um calote, há que subir as margens para cobrir as despesas e riscos futuros. No fundo, neste e noutros negócios, quem paga, paga pelos que pagam e pelos que não pagam, ou o restaurante tem de fechar. Mas no fim de tudo, afinal sempre houve alguém que almoçou de graça.

O volume de calotes que acontecem em cada restaurante, depende não só da clientela, como também da época. Há anos em que há mais calotes que outros. Nesses anos, a indústria da restauração ganha menos dinheiro. Porque o número de calotes esperados era menor, há prejuízos.

Como nos dias que correm, tanto é opção pagar, como não pagar, aumentam as coberturas de risco, e aumentam os preços das coisas. As economias do mundo inteiro estão mais enfraquecidas. Como os empresários da restauração pediram fiado aos bancos, estes têm também de aumentar os preços (taxas de juro) e fechar a torneira do crédito. O mundo chegou onde chegou, porque todos estes agentes foram aconselhados por ilustres economistas, que gostam mesmo é de almoçar. Já estava na altura destes senhores ilustres abrirem outras torneiras, e dedicarem-se mas é a lavar pratos, porque trabalhar nunca fez mal a ninguém!

Li no outro dia um artigo muito interessante de um grande economista, que defendia que os comentadores de opinião dos jornais não são em nada diferentes dos treinadores de bancada. Opinam sobre a vida política e sobre decisões importantes, como qualquer mortal opina sobre uma não menos importante substituição mal feita por Jorge Jesus. Apenas o fazem de uma maneira mais formal, sem impropérios, num órgão de comunicação social mais ou menos relevante, com uma fotografia com um ar muito pensativo e respeitável, como se de um Einstein da economia ou política se tratasse, tentando fazer da opinião publicada, a opinião pública.

Eu também sou economista, mas como não tenho qualidade para exercer, tenho de lavar pratos! Mas já que estou aqui, vou aproveitar a oportunidade para fazer um comentário muito pouco iluminado à situação económica actual e à crise económica mundial:

Os Meticais são todos iguais, mas há uns mais iguais que outros. Os Meticais em Maputo são diferentes dos Meticais de Chidzolomondo. Em Maputo, um almoço tem um custo, e em Chidzolomondo tem outro. Nenhum é grátis! O alojamento da capital é bem mais caro que em Chidzolomondo. O acesso a bens e serviços é muito diferente numa e noutra localidades. A remuneração de uma hora de trabalho também difere em muito de Chidzolomondo para Maputo. No entanto, e tratando-se do mesmo país, tem de usar a mesma moeda, até por questões de soberania. Não faria sentido que cada província utilizasse a sua própria divisa dentro do mesmo país.

Se ampliarmos o espaço de análise, e pensarmos na SADC, poderemos pensar que estaremos a caminhar para uma união aduaneira com possibilidade de uma futura união monetária. Uma união monetária entre países, é como uma união monetária dentro do mesmo país. Se os Euros de Lisboa são diferentes dos Euros de Chaves, ambos os Euros são diferentes dos Euros da Alemanha. Horas de trabalho, almoços (pagos!), estadias têm todas valores diferentes consoante a produtividade de cada economia. O que se consegue fazer com os recursos em determinado espaço de tempo é a chave para a valorização de uma economia. Os Meticais que cada Metical consegue produzir no mesmo espaço de tempo é factor distintivo da valorização de cada Metical, os de Maputo e os de Chidzolomondo. Políticos e economistas, artificialmente, tentaram fazer várias nações utilizar a mesma moeda, em sítios com produtividades diferentes. Inventaram critérios de convergência, no sentido de normalizar as economias e todas se comportarem mais ou menos da mesma maneira. Eles esqueceram-se é que o Homo-Economicus é constituído por uma manada muito grande e impossível de controlar centralmente. Como os mercados são vivos, eles corrigem-se automaticamente ou por obrigação. Na Grécia como em Portugal houve correcções no poder de compra através de reduções dos salários. Isto não é muito diferente de uma desvalorização dos Euros Portugueses e Gregos, relativamente aos outros Euros. Nominalmente, trata-se da mesma moeda, só que vale menos, dá para comprar menos coisas. Se calhar era melhor trocar de moeda, e desvalorizá-la realmente. Assim limpar-se-iam todos os stocks de mercadorias exportáveis, o que daria um grande contributo para o equilíbrio das balanças de pagamentos e tornaria as economias realmente competitivas do ponto de vista de comércio internacional. É certo que só seria possível fazer isso uma vez, mas para grandes males, grandes remédios! Os estados continuam a emitir dívida na ordem dos milhares de milhões de Euros, como se fosse um empréstimo para comprar um carro novo. Os filhos ou mesmo os netos desta geração irão pagar estas dívidas. (Será?) Os países periféricos da zona Euro arriscam-se a passar de um regime de moeda única para um regime de única moeda, pois tudo está hipotecado.
A SADC e o mundo têm também de equacionar e aprender com os erros dos outros. A possibilidade de enveredar por um sistema de moeda única é arriscado e tem de ser bem planeado. Nem todos os países têm as mesmas condições para crescer. Nem todos os países têm os mesmos recursos, ou a mesma capacidade instalada para produzir. Nuns países os almoços são mais baratos que em outros, e não depende só do restaurante.

O dinheiro, que foi talvez a invenção humana que contribuiu mais para a aceleração do processo civilizacional como o conhecemos hoje, tem de ser tratado com cuidado. Hoje, trocam-se títulos de coisas cujo valor e risco ninguém conhece, empresta-se dinheiro sem saber bem a quem nem para quê, e isto chegou onde chegou! Qualquer dia, se quisermos almoçar, temos de fazer troca directa com os nossos fornecedores! Ou então ir semear ou criar o nosso almoço, porque este continuará a não ser de graça.

Bem, como eu também preciso de almoçar, se calhar o melhor é eu ir lavar uns pratos...
P.S. – Para os interessados, Chidzolomondo pertence ao distrito de Macanga, província de Tete.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Os Deuses Devem Estar Loucos!

A vida no planeta Terra é um fenómeno dinâmico. As espécies vão evoluindo de acordo com a própria evolução do meio. Animais e vegetais vão-se ajustando de forma a subsistirem e a prolongarem a sua permanência no planeta. Os dinossauros que proliferavam no planeta foram dizimados por razões ambientais que nos dias de hoje são difíceis de explicar ou de provar. Há no entanto espécies de répteis que ainda perduram desde eras longínquas, como as tartarugas e os dragões das Galápagos. Vezes há, em que o próprio meio é mudado pelas espécies animais ou vegetais, como é o caso de pragas de insectos que acabam com espécies vegetais por onde passam ou mesmo bactérias e vírus que matam enormes populações de espécies animais, levando algumas mesmo à extinção. É a mão da Natureza, ou para os mais crentes, a mão de Deus.

O Homem não é excepção a este processo. Ao longo do processo evolutivo foi ganhando força e desenvolvendo meios e engenho que lhe permitiram sobreviver mesmo nos meios mais remotos, transformando-os em locais mais aprazíveis para poder perpetuar a espécie de forma mais consistente. A descoberta da agricultura e o seu desenvolvimento foram mudando os ecossistemas desde sempre. O controlo dos recursos hídricos tão indispensáveis à vida e à produção de alimento foram factores determinantes para a vida humana como a conhecemos hoje. A mudança de cursos de rios, a construção de barragens, açudes e diques mudaram paisagens, faunas e floras de zonas do planeta como nenhum outro animal conseguiu.

O desenvolvimento de algumas actividades económicas, como a pastorícia ou a pesca, e fenómenos migratórios da raça humana foram responsáveis pelo controlo de outras espécies predadoras que se apresentavam como uma ameaça para o negócio ou mesmo para a sobrevivência humana. A caça em larga escala foi responsável pelo trucidar de algumas espécies animais. O snooker, por exemplo, jogo inventado pelos ingleses na Índia, foi responsável pela redução das populações autóctones de elefantes quase até à extinção. As primeiras bolas do jogo eram feitas de marfim, pelo que, com a redução do número de elefantes que esta produção originou, surgiu a necessidade de se inventar as primeiras ligas plásticas para substituir a necessidade de tão nobre jogo.

Algumas populações de pescadores do hemisfério Norte destroem faunas inteiras de uma mesma espécie, com redes de arrasto que a tecnologia permitiu construir para bem de um negócio que se quer o mais rentável possível. Por questões da mesma rentabilidade, outros pescadores arrasam quantidades enormes de predadores, como focas ou mesmo outras espécies animais predadoras do seu sustento. De quando em vez, vêem-se imagens destas em noticiários ou mesmo na internet, normalmente apoiadas por grandes movimentos ambientalistas, que com meios mais ou menos parcos se revoltam contra estas actividades.

A revolução industrial foi também responsável por grandes mudanças nos ecossistemas, bem como no aproveitamento dos recursos disponíveis no planeta Terra. Grandes indústrias mudaram o planeta. As indústrias extractivas mudaram a paisagem, as indústrias transformadoras mudaram a fauna e a flora, destruindo rios, transformando-se mesmo numa ameaça para a própria sobrevivência humana. As grandes indústrias foram grandes aglomeradores de populações, que precisavam de produção de alimentos, e essa produção estava em risco pela danificação do meio, causada pela própria indústria. Nas fases iniciais da actividade industrial ninguém pensava nisto, até porque uma vez que a indústria era criadora de riqueza e de emprego, as populações estavam melhores com fábricas do que sem elas. Surgiram então as primeiras consciências ambientais que tentaram ir contra a ganância desmesurada de alguns industriais, cujo poder adquirido pela capacidade financeira do negócio lhes permitia manter a actividade, até porque eles próprios eram responsáveis por alimentar um sem número de bocas que laboravam nas suas fábricas.

Em que é que isto é diferente da mão da Natureza de que vos falava há pouco? Será uma praga de gafanhotos assim tão diferente da actual vida humana em sociedade? As consciências ambientalistas foram crescendo e ganhando algum poder. A era da informação permitiu-lhes comunicar a nível global e fazer ver ao mundo pequenino que a vida humana já existia há milhares de anos sem nenhum destes problemas e que os recursos sempre foram suficientes para cumprir todas as necessidades de sobrevivência da espécie. O ambientalismo surge assim como uma nova comunidade de profetas do apocalipse. A mão (humana) da Natureza, ou a mão de Deus põe em risco a própria existência humana. Noé, no Antigo Testamento, foi outro grande profeta do apocalipse. Será que está para breve outro dilúvio? Se está ou não, não sei, mas a ciência dos dias de hoje conseguirá contornar este problema e garantir a perpetuação da espécie humana, sem sequer ter necessidade de correcções demográficas. O Homem pertence à Terra, não é a Terra que pertence ao Homem. O Homem comporta-se como um vírus que se aproveita dos recursos por onde passa. Mas como um vírus, não pode destruir o seu hóspede até ao infinito, sob pena de acabar com a sua própria existência. A ciência tenta fazer com que o humano seja maior que a própria Natureza e tenta controlá-la como se de um Deus se tratasse. O Homem surge como um Deus maior e tem um papel preponderante no grande processo da Criação.

Vamos lá a ver se o Homem acerta nessa tão árdua tarefa. Errar é humano. Se Deus criou o Homem à sua imagem e semelhança, é porque os deuses também erram. Terá sido a criação humana um erro? Nesse caso, também o foram os dinossauros, não seria a primeira vez. Ou terá sido Deus criado pelo Homem à sua imagem e semelhança, tentando criar uma entidade que não erra, que seria o sonho da espécie humana? Eu não sou nenhum especialista na matéria, mas quero acreditar que estará tudo bem encaminhado para a nossa sobrevivência, e ainda mais importante, a sobrevivência do planeta Terra. Todos estamos cá de passagem, a morte é certa. Temos de assegurar que vão haver muitas passagens, para nós e para outras espécies. A vida na Terra é um trabalho de equipa, e não sobrevivemos sem os outros animais, sem água e sem as plantas. O Homem vai ultrapassar todas as dificuldades de gestão de recursos e continuar a proliferar enquanto espécie dominante do planeta. Ou pelo menos, Deus queira que sim.
Este artigo foi publicado na edição de 30 de Outubro de 2010 no Jornal "O País"

Aquela Máquina!

Os humanos são uma das espécies mamíferas mais interessantes do planeta. Sendo a espécie animal com o cérebro mais desenvolvido, conseguiram, ao longo da História, inventar formas e instrumentos de adaptação ao meio, que lhe permitiram ser a espécie dominante da Terra. Para alguns, as maiores invenções humanas poderão ser a roda ou os instrumentos do domínio e controlo do fogo, que permitiram aumentar as probabilidades de sobrevivência, mas para outros Deus ou o dinheiro apresentam-se como verdadeiros aceleradores do processo civilizacional, e sem eles, não teríamos chegado onde chegámos. Pondo de parte as filosofias, há um grande número de invenções ou facilitadores de vida, que se apresentam como soluções para grandes problemas. Alguns desses problemas deixam de o ser, e deixamos de pensar nas soluções iniciais que usávamos antes de determinada engenhoca ser inventada. Senão vejamos:

Antes da invenção da máquina de calcular, toda a gente sabia mais ou menos fazer contas de cabeça, ou contas de merceeiro. Hoje, a máquina de calcular tornou a tabuada obsoleta. Já não é necessário saber. Não será isto bizarro? Imaginem o tempo não muito distante onde folhas de salários de empresas com muitos trabalhadores eram calculadas à mão, onde as horas de ponto eram somadas como se de uma conta de mercearia se tratasse. Inventaram as folhas de cálculo e resolveram o problema.
Os computadores revolucionaram a sociedade humana e todos os negócios de uma forma irreversível. A vida de qualquer escritório é hoje facilitada por instrumentos electrónicos que permitem fazer quase tudo de forma muito mais rápida, poupando recursos que antes eram indispensáveis e muito mais dispendiosos para o desenvolvimento operacional de qualquer actividade comercial.
O problema surge quando a tecnologia torna os humanos incapazes de trabalhar sem ela. Por exemplo, quando há faltas de energia, fenómeno comum na cidade de Maputo, há empresas que param a sua actividade comercial. Os computadores existem há poucas dezenas de anos, e os programas de contabilidade e facturação existem ainda há menos tempo. Será que antes não havia negócios? Não se faziam facturas? Faziam, mas alguns empresários, ou já se esqueceram como se fazia, ou começaram a actividade já depois da invenção dessas ferramentas. Para os empresários mais afoitos, a actividade não pára, mas para essa grande maioria, as facturas não existem nem com electricidade nem sem electricidade. O IVA é todo lucro.
Há países no mundo onde o número de cartões de celulares activos é cerca de uma vez e meia o número de cidadãos do mesmo país. O celular vem também ocupar um lugar indispensável na vida das pessoas. Não bastava ter um, mas algumas pessoas têm mesmo dois e mais números de telefone. Com o aparecimento da terceira operadora em Moçambique vamos assistir também a esse fenómeno. Para alguns, mesmo com rendimentos menos abastados, o telefone móvel é uma ferramenta sem a qual não conseguem viver, embora a humanidade tenha sobrevivido durante milhares de anos, sem qualquer tecnologia do género.
As máquinas condicionam e viciam o comportamento humano, deixando este de saber trabalhar sem elas. Os instrumentos de navegação por GPS são outro exemplo. As pessoas que já se habituaram a viajar com eles, já não sabem, nem querem saber, como se interpreta um mapa. Por vezes até a máquina dá ordens que não são as mais rápidas ou as mais práticas, mas o humano subjuga-se à ordem electrónica de virar à direita ou à esquerda, porque a máquina não tem aquele caminho naquela actualização do programa. Um cérebro humano é inibido de pensar por causa de muitos outros cérebros que inventaram e programaram a máquina.
Uma outra máquina, em 1997, venceu o campeão do mundo de Xadrez. Garry Kasparov foi derrotado por um computador. Essa vitória do computador, não passou também de uma vitória de milhares de cérebros humanos, ao longo de toda a História da Ciência, sobre apenas um único cérebro, do campeão mundial de Xadrez do fim do século XX. Pitágoras, Arquimedes, Euclides, Euler, Einstein, Taylor, Volt, Newton e muitos outros venceram o Senhor Kasparov, ainda que a muito custo e com algumas polémicas pelo meio. Bravo, Kasparov!
Outras máquinas há, que não têm qualquer razão de ser, e que são obsoletas à nascença e não representam qualquer avanço tecnológico à data da sua invenção. Na guerra-fria, os Americanos gabavam-se de ter inventado uma esferográfica que conseguia escrever na ausência de gravidade, instrumento que se iria revelar muito útil para a era espacial. A tinta era injectada para a superfície de escrita, em vez de ser comprimida pela gravidade e peso da própria tinta, que a fazia sair pela extremidade inferior do objecto. Os Russos acharam uma certa piada a esta invenção, que foi apresentada como um avanço da engenharia da altura, fruto de anos de trabalho da NASA, e de orçamentos avultados em investigação e desenvolvimento e responderam: “Sim, sim. Nós usamos o lápis!”.
Os humanos são o animal mais inteligente do planeta. A evolução natural confirma a teoria Darwiniana de que os mais aptos vencerão e sobrepor-se-ão às restantes espécies. Os avanços tecnológicos da humanidade determinam que consigamos fazer coisas de forma muito mais fácil, com menor dispêndio de recursos. Recursos esses, que podem ser usados noutras finalidades. No entanto, nunca podemos olvidar-nos dos pilares básicos da sabedoria humana. A tabuada é essencial! Saber ler um mapa é extremamente útil e até é interessante! O Google não tem tudo! Os computadores, e todas as máquinas são meras invenções humanas, e como tal, estão cheias de erros e lacunas. Há que estar preparado e nunca é tarde demais para aprender!
O que iria achar Pitágoras, se visse que nos demitimos de pensar? Será que iria ficar orgulhoso? Até parece que o estou a ver: “Se não fosse eu e alguns dos meus discípulos, esta gente tinha de pensar tanto e ser tão mais inteligente…” Quem lhe dera não ter tido tanto trabalho. Um grande bem-haja a todos os que usaram essa grande máquina que é o cérebro humano, para que outros, como nós, não a tivessem de usar tanto! Pensar cansa! Nem quero saber como se terá sentido o Kasparov. Certamente pior que o inventor do lápis espacial Russo…
Este Artigo foi Publicado na edição do Jornal "O País" de 16 de Outubro de 2010

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Educar para Desenvolver

A educação e o nível de literacia são um dos factores primordiais para o desenvolvimento de uma nação. As pessoas vão à escola, para aprender a trabalhar, para terem empregos melhores e ganhar mais dinheiro. Se todos os cidadãos souberem mais, a economia produzirá mais e melhor. Se uma economia não dispuser de recursos naturais que possam trazer vantagens competitivas em termos internacionais, a sua verdadeira distinção terá de surgir do nível de habilitações dos seus cidadãos.
As classes políticas, muitas vezes, descuram este factor, menosprezando a educação, e não criando planos a longo prazo, sofrendo de alguma miopia, pois um processo educativo, desde o nascimento até à conclusão de uma licenciatura, altura em que se começa a trabalhar, demora mais de 20 anos, ao contrário de uma legislatura, que em Portugal dura apenas quatro anos. Num sistema de educação, deve incutir-se disciplina, capacidade de trabalho, empreendedorismo e capacidade de resolução de problemas. Um aluno que chega atrasado às aulas, toda uma vida, muito dificilmente vai ser o primeiro a chegar ao escritório quando começar a trabalhar. Decisões como o fim do chumbo por faltas são decisões que desorientam toda uma geração e que a preparam mal para o mundo do trabalho.
Moçambique foi assolado por uma guerra civil que destruiu todas as estruturas de educação e cultura, e deixou o país num estado de necessidade tal, que levou o processo educativo e formativo para um segundo plano. Com todas estas estruturas destruídas, Moçambique tem uma taxa de alfabetização inferior a 50%, sendo ainda menor no interior. Em Moçambique, a língua oficial é o Português, mas há mais de dez dialectos autóctones que são falados correntemente. Há localidades onde mais de metade da população não fala o Português. Nas zonas rurais há crianças que se deslocam mais de 20 kms por dia, a pé, para poderem ir à escola.
A escola com computadores, como a conhecemos em Portugal, com o Magalhães, aqui não existe.
Aliás, há escolas, onde o quadro é o chão de terra da cabana no meio do mato, e os cadernos de apontamentos são papéis usados, como versos de facturas. Os meios técnicos de educação são igualmente escassos.
Os défices nutricionais, pelos quais algumas crianças passam em tenras idades são também grandes travões ao nível da capacidade intelectual e de raciocínio. A proliferação de algumas doenças como a malária e o HIV, e a reduzida esperança média de vida são factores que devem ser considerados no que se refere à motivação e desenvolvimento do processo educativo. Em conversa com alguns recrutadores moçambicanos, descobri que o sistema de educação moçambicano é pouco evoluído e mesmo o nível universitário não prepara da melhor forma a mão-de-obra.
Mesmo alguns professores universitários têm dificuldade na articulação do Português, uma vez que não é a linguagem que utilizam no dia-a-dia. Aqui ao lado, na África do Sul, o Governo reconheceu os principais dialectos como línguas oficiais do país, preservando a cultura e identidade nacionais, embora o inglês seja uma língua muito mais global. Há uma carência de qualificados em Moçambique. Com a crise, há um novo fluxo migratório oriundo do mundo desenvolvido para certos pontos do mundo em desenvolvimento. Moçambique é, pois, uma terra de oportunidades para mão-de-obra qualificada que não tem empregos nos países desenvolvidos.
Para tentar travar essa migração e aumentar a taxa de emprego de Moçambique, o Estado criou uma lei de quotas. Cada empresa só pode ter um máximo de 10% de estrangeiros. Há casos de empresas que contratam 9 moçambicanos para funções fantasma pelo salário mínimo moçambicano (€50,00), para poderem contratar um estrangeiro qualificado. Há certas áreas de negócio, mais técnicas, onde não há moçambicanos qualificados e uma empresa não pode ser montada só com estrangeiros. Certas empresas, principalmente dos países nórdicos, mais disciplinadas, e menos dadas à corrupção, recusam-se a trabalhar nestas condições. Ainda assim, este país tem muito para fazer e muito por onde crescer.
É uma terra de oportunidades e é o lugar para um jovem qualificado dos 25 aos 35 anos estar, neste momento de crise mundial.

Excesso de Escassez

A ciência económica debruça-se sobre a afectação de recursos escassos passíveis de aplicações variadas. Economizar é então optimizar recursos. Gerir uma empresa, ou uma organização, ou mesmo um país, é isso mesmo.

Alguns gestores ou economistas, sentir-se-ão incomodados com esta afirmação, pois não percebem que, no fundo, têm o mesmo objectivo, optimizar recursos. A escassez fez com que, de tempos a tempos, surgissem novos paradigmas económicos, criados por novas realidades, como choques na oferta, na procura, choques tecnológicos, crises financeiras como a que estamos a viver hoje, ou outro qualquer fenómeno global que tenha efeitos na Economia como um todo.

Moçambique saiu de uma guerra civil há pouco mais de quinze anos. Neste período de paz, foi assolado por uma seca de cerca de dez anos, que foi terminada com inundações inigualáveis que levaram o país para o topo dos mais pobres do mundo. Ainda hoje o país se ressente de tudo isto.
Com uma taxa de crescimento de cerca de 7% ao ano, o PIB per capita anda ainda abaixo dos 650 USD. Certos bens, que são considerados como garantidos no mundo desenvolvido, são escassos e continuarão escassos por muitos mais anos.

Mesmo nas grandes empresas de distribuição, não há fornecimentos contínuos da grande maioria dos bens. Por vezes é necessário que chegue mais um contentor de determinado bem, para voltar a comprar um novo produto de determinada marca. Este processo pode demorar mais de um mês, ou pode mesmo acontecer que esse produto
não volte a estar disponível.

Há uma grande disparidade entre a comunidade internacional e a moçambicana. Eu, no programa INOV Contacto, aufiro mais num dia, que certas profissões correntes, como empregadas domésticas ou guardas de segurança, num mês de trabalho. Em dois dias faço mais que o salário médio do país. Como consequência dessa escassez e da extrema necessidade, tudo se vende na rua, desde balanças, relógios e óculos de sol, até cabides e ferramentas de automóveis. O artesanato tem um papel peculiar, pois sentado em qualquer esplanada, assistimos a uma pequena exposição itinerante de quadros ou outras obras que passam, sempre com a promessa de um bom preço. Há ainda a criação de certos nichos de mercado, como o dos espelhos retrovisores e piscasque são roubados de cada vez que o automóvel é deixado num recanto mais escuro. E existe a profissão de gravador de matrículas em quase todas as peças roubáveisde um automóvel, para impedir os larápios de exercer o seu ofício.

Apesar disto tudo, os Moçambicanos são um povo muito correcto nas contas. Noutras viagens que fiz pelo mundo, deparei-me com manhas de rua que não vi por aqui. Em Moçambique, o preço pode ser negociata de feira, mas não há enganos no troco, ou na entrega da mercadoria. Toda esta necessidade faz com que os moçambicanos tenham de começar a trabalhar muito cedo. É comum ver crianças a vender amendoins ou outro qualquer artigo, em vez de estar na escola a aprender para poder produzir melhor e fazer crescer o seu país. A gestão de tesouraria do moçambicano não existe. Chapa ganha é chapa gasta. Um amigo meu tem uma rede de supermercados que vende toneladas de arroz a cada primeiro dia do mês, para garantir alimento para os seguintes trinta dias. Uma saca de 25 kgs faz o consumo de uma família. As restantes despesas são feitas sem método e a poupança não é habitual, devido talvez à desvalorização do Metical. As despesas de transporte costumam ser pagas diariamente, sob pena de a meio do mês o funcionário deixar de vir, por ter gasto todo esse dinheiro. Como eu recebo em Euros, e gasto em Meticais, nos seis meses que estive em Moçambique, é como se tivesse sido aumentado em 15% no meu salário, tal foi a depreciação.

No mundo global em que vivemos, há então níveis de escassez desta ordem. A menos de 200 kms de Maputo está Nelspruit, na África do Sul, onde a escassez não existe, e onde a comunidade internacional de Maputo se abastece. Eu próprio tive de recorrer a esta alternativa, pois fui mordido por um cão e a vacina anti-rábica não existia em stock na cidade. Se houvesse, ter-me-ia custado o mesmo que me custou na África do Sul, incluindo, gasóleo e subornos a polícias sul-africanos. A única diferença entre um polícia sul-africano e um moçambicano é a linguagem, pois até no preço e na divisa são similares. Tanto recebem em Rands como em Meticais. No fundo, penso que não se pode chamar corrupção, mas sim necessidade. Nas operações stopa abordagem do polícia é toda direccionada para o pagamento de ajudas, sob o pretexto de pagar refresco ou uma gratificação pela amizade.

Maputo é, então, um paraíso para a ajuda internacional, onde proliferam mais de 600 ONGsde toda a espécie, havendo algumas que, de solidariedade têm pouco, antes se tratando de autênticas empresas capitalistas. O sistema político tem vindo a agilizar estas ajudas e a criar abertura para a entrada de bens e serviços essenciais para toda a população moçambicana.

O país está a crescer, mas há ainda muito a fazer.
As oportunidades proliferam.

A Conta, Por Favor

“Não há almoços grátis” é um grande chavão da economia e dos economistas. Na verdade, não há almoços grátis, mas há almoços mais lucrativos que outros. Claro que os economistas ilustres gostam mais é de comer que de servir almoços, então pensam apenas do lado do cliente e olvidam a vertente do fornecedor.
Claro que para os empresários da restauração, principalmente aqueles que vendem fiado, isto nem sempre é verdade. Quando acontece um calote, há que subir as margens para cobrir as despesas e riscos futuros. No fundo, neste e noutros negócios, quem paga, paga pelos que pagam e pelos que não pagam, ou o restaurante tem de fechar. Mas no fim de tudo, afinal sempre houve alguém que almoçou de graça.
O volume de calotes que acontecem em cada restaurante, depende não só da clientela, como também da época. Há anos em que há mais calotes que outros. Nesses anos, a indústria da restauração ganha menos dinheiro. Porque o número de calotes esperados era menor, há prejuízos.
Como nos dias que correm, tanto é opção pagar, como não pagar, aumentam as coberturas de risco, e aumentam os preços das coisas. As economias do mundo inteiro estão mais enfraquecidas. Como os empresários da restauração pediram fiado aos bancos, estes têm também de aumentar os preços (taxas de juro) e fechar a torneira do crédito. O mundo chegou onde chegou, porque todos estes agentes foram aconselhados por ilustres economistas, que gostam mesmo é de almoçar. Já estava na altura destes senhores ilustres abrirem outras torneiras, e dedicarem-se mas é a lavar pratos, porque trabalhar nunca fez mal a ninguém!

A Abelha-Mestra

As abelhas são um animal de extrema importância para os ecossistemas do planeta. Polinizam as espécies vegetais e são essenciais para a agricultura. Há mesmo apicultores móveis que se deslocam centenas de quilómetros até grandes plantações na época da flor para polinizar e aumentar a produtividade das colheitas. As abelhas vivem num sistema social complexo, com hierarquias bem definidas, e onde cada classe desempenha o seu papel. No entanto alturas há, em que a colmeia, por variadas razões, deixa de conseguir ter recursos para toda a colónia, e tem de enxamear. Ou por excesso de população, ou por falta de alimento, toda a população, incluindo a rainha, abandona a colmeia em busca de um poiso melhor, onde a sobrevivência da colónia possa ser melhor sustentada.
Nos negócios, os humanos também se comportam como a Natureza. Em cada ramo, abrem-se negócios, como nenúfares, que vão crescendo salutarmente no lago. Com o desenvolvimento científico dos negócios, criam-se aumentos de eficiência que tornam muitos outros colegas do mesmo ofício obsoletos. Vão-se assim eliminando membros da mesma espécie, caminhando para oligopólios/monopólios, onde muitas vezes as autoridades de concorrência não sabem como intervir. No limite, apenas será precisa uma marca de cada bem para garantir que a produção tenha qualidade para toda uma economia. Na distribuição passa-se o mesmo. Fábricas extremamente eficientes, que concorrem com competidores da mesma dimensão, têm de fazer concentrações a jusante e incorporar a distribuição no próprio negócio. Surgem assim os Category Killers. Grandes lojas, especializadas em artigos desportivos, electrodomésticos, ou até mesmo mercearia, vão crescendo como nenúfares maiores, tomando conta do lago, assimilando ganhos de especialização e optimização de recursos. Departamentos, como publicidade, marketing, contabilidade, trabalham para uma mesma rede, diluindo os custos entre as lojas, tornando as grandes empresas altamente competitivas nos mercados. Isto verifica-se com frequência no mundo ocidental e Moçambique para lá caminha.
Por essa e por outras razões, as taxas de desemprego dessas economias crescem, e as taxas de crescimento são estranguladas pela concorrência feroz. Para citar apenas uma história célebre de comportamento predatório em negócios, havia um café antigo e famoso nos Estados Unidos. A grande cadeia Starbucks (franshising de lojas de café) decidiu que aquele era um bom sítio para estar, e abriu uma loja na porta ao lado. Como não chegou para derrubar o imponente e antigo café, decidiram abrir outra loja na porta do outro lado. Depois de definharem o velhinho café e este ter de fechar, o gigante americano decide fechar uma das lojas que abrira, já que não precisava de ter duas lojas iguais a concorrerem tão perto uma da outra.
Contra competidores deste calibre, as economias do Ocidente tornam-se insuficientes para alguns grupos sociais. Os donos e trabalhadores destes cafés velhinhos têm então de enxamear. É o que se está a viver neste momento, com um novo fluxo migratório que vem para África. Plena de recursos, atrai os indivíduos mais dinâmicos que se tornaram “obsoletos” na sua própria colmeia, ou que estão descontentes com as suas próprias vidas. Todos os dias, chegam aviões que trazem pessoas qualificadas e investidores, à procura de novas oportunidades. Da Europa, das Américas e até da Ásia. Não se trata de uma invasão, nem sequer de uma ameaça. Trata-se mesmo de uma grande oportunidade. Moçambique, que neste momento vive um clima de crescimento sustentado e continuado, tem tudo a ganhar com estes novos obreiros, que tentam polinizar o quintal Moçambicano, na esperança de levar algum mel. Eles levam mel, mas o quintal fica mais frondoso e a fruta é mais abundante e mais doce.

terça-feira, 30 de março de 2010

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Empobrecimento Ilícito

No âmbito das constantes mudanças do enquadramento jurídico de diversas práticas, que algumas vezes se tornam mais ou menos lícitas, consoante a vontade do freguês, há alterações na moldura penal, extinção e criação de alguns crimes. Ora, no momento em que o deputado se torna um trabalhador por conta própria, tema de que já aqui falei, surgem coisas tão absurdas como o crime de enriquecimento ilícito. O que é então o enriquecimento ilícito? Não será que os verdadeiros crimes são as falsificações de assinaturas, e de documentos? Ou os abusos de poder e viciação de concursos públicos? Ou todas as outras patranhas a que os vigaristas do costume nos habituaram? Pois é, mas se existe agora o crime de enriquecimento ilícito, o que é que acontece se o negócio correr mal? Se o criminoso abrir falência, deixa de o ser?! Se ficar pobrezinho já não é condenável?! “Sr. Dr. Juiz, eu passei facturas falsas, mas como não me pagaram, fiquei na penúria! (Snif! Snif!) Tive até de vender o meu segundo Jaguar!”

Será que a inventariação de património poderá servir de atenuante numa situação destas? Os criminosos põem os bens todos em nome da mulher e do cão para parecerem mais pobres (é melhor confiar no cão…). A maioria dos vigaristas de ofício já o faz, para quando chegar a altura de executar bens, não haver nada por onde pegar. Mas agora quando chega à altura de se decidir se é crime ou não, o património responderá? Eu até percebo o princípio: se sou criminoso, só respondo por isso, se ao menos tiver tido o prazer de gozar os despojos da minha vigarice…

E quem avalia o que é enriquecimento? Para o Engenheiro de Azevedo não são quaisquer 10.000 Euros que enriquecem. Será que vêm no código penal os montantes a partir dos quais é crime? Se se tratar desses 10.000 Euros, haverá especialistas em operações de 9.999,99 Euros. Até arranjam facturas e talões de depósito!

O dinheiro não é tudo na vida, há também os cheques, carecas e falsos. Aos vigaristas de Portugal, ponham-se a pau, que agora é que o sistema legal vai apertar! Amedrontem-se! Dediquem-se a outras actividades, como o trabalho sério! Passem facturas, e declarem o IVA! Poupem! Já o velho Patinhas dizia que milhão poupado é milhão ganho. Trabalhem! Façam pela vida, de maneira honesta. Emigrem se for preciso! Ouviram, Senhores Deputados?

terça-feira, 3 de março de 2009

As Tábuas da Lei

Os homens são todos iguais, mas há uns mais iguais que outros. Aos olhos da lei, os homens pretendem ser iguais, mas esquecem-se que a lei é criada por uns homens para ser aplicada por outros homens sobre homens. Logo à partida, está tudo errado. Não há dois homens iguais. Eu não sou igual a ninguém, e não há duas pessoas que me vejam da mesma maneira. Todos somos únicos e insubstituíveis. Alguém um dia disse que até os cemitérios estão cheios com pessoas insubstituíveis...

Nem mesmo nos cânones do Direito, somos todos iguais. O Sr. Moisés, quando desceu do Monte Sinai, não trouxe nada sobre a cobiça do homem da próxima. Mas a mulher alheia já é incobiçável! Isto faz-me lembrar certas leis desenhadas à medida do legislador, quase por encomenda. Coisas como a reforma do código de processo penal, que trouxe 2000 presos preventivos para a rua (foram todos directamente para a missa!) que até deram jeito a certos deputados casapianos. Os deputados casapianos, ou os apresentadores casapianos, ou os embaixadores casapianos também não são iguais perante a lei. Ou o problema é que até são... Todos gostam de “embaixar” as calças dos meninos e todos passam impunes. Uns até recebem indemnizações...

A nova lei do divórcio é outro exemplo. Quem foram os deputados que nessa fase estavam em processo de divórcio, ou em vias de um? Isso até deve ser fácil de descobrir, mas como entre ex-marido e ex-mulher não se mete a colher, ninguém vai verificar... Cada bancada parlamentar tem inúmeros advogados de carreira, que nas horas vagas (na vida de um deputado há 24 horas vagas por dia...) aprovam as leis que dão mais jeito ao seu escritório.

O Sr. Moisés foi o grande mentor dessa grande profissão que é o deputado. Depois do Monte Sinai, ainda andou 40 anos a vaguear pelo deserto. Agora com certas optimizações, bastam duas legislaturas para ter uma reforma completa. Se Moisés fosse brasileiro, olhava para este mundo e suspirava: “Que Legal!”

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Brand Management

Há em Lisboa um porto, mas no Porto não consta que haja uma Lisboa. Poderá haver um café Lisboa, ou mesmo uma mercearia Lisboa, mas essa será a relevância máxima que a capital da nação terá na capital do Norte. Muitos acharão que fazem bem, e que o Porto é o Porto e Lisboa é Lisboa. Na verdade quem manda no Porto são as gentes da terra e quem lá vive é que sabe, e parece-me a mim que têm feito um bom trabalho.

Na verdade, no Porto também não há nenhum porto. O porto do Porto é o porto de Leixões, que se situa no Concelho de Matosinhos. Se pensarmos bem, os grandes ícones do Porto também não são bem do Porto. Reparem: O Vinho do Porto é feito com uvas que vêm da zona da Régua, cerca de 100 Km Douro acima, e é feito nas caves de Gaia. Caves essas, que têm, quase todas, nomes estrangeiros. Mas o vinho é do Porto! A francesinha é uma iguaria trazida para o Porto por um emigrante em França, que ao chegar a casa, a apelidou com esse nome. O Porto é então um bom gestor de marcas.

Há no entanto uma grande (ou não!) marca, que não está nas mãos desses senhores, cuja origem é distintamente portuense. Portus + Calém, a origem do nome e da geoestratégia do Condado Portucalense, que mais tarde resultou em Portugal. Aquilo que se vê da Ribeira e do Cais de Gaia foi o primeiro coração do Condado, e posteriormente do Reino. Coração esse, que é banhado por essa grande artéria que é o rio d’Ouro.

Onde anda a alma dessa gente?! Está tudo entregue à rapina de Lisboa! O Porto é das poucas cidades masculinas que eu conheço. É o homem da casa! Mas a mulher é que manda… Não tem mal as mulheres mandarem, mas esta mulher está cansada, doente! Precisa de desparasitar! Senhores do Porto, venham até cá e tomem conta disto, que assim não vamos a parte nenhuma! Façam de Portugal uma marca reconhecida! Nós já temos um porto! Não temos é as gentes do Porto!

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Conquistar o Mundo

O Mostrengo
O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as repreendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»

Fernando Pessoa, Mensagem, 1934
Quando se sai de Portugal, onde quer que possamos ir, encontramos sempre um português. Os portugueses são um espécime que se espalhou pelo planeta, descobriu meio mundo, e provou a esfericidade da Terra. Esses grandiosos feitos dos nossos antepassados foram realizados por homens pequeninos (O Sr. Gama fez o maior feito da História da humanidade, até à data, com apenas 30 anos!), com parcos meios, e mudaram a História para sempre.
Cada vez que um português sai lá para fora, tem de tentar ser como o Sr. Dias que é retratado no poema acima. O Sr. Dias ia com medo. Tremeu muitas vezes antes de dobrar o Cabo da Boa Esperança. Mas manteve-se firme até ao fim, e disse no fim de tremer três vezes:
“Aqui ao leme sou mais do que eu:”
Como ele, vamos todos em missão, em representação de Portugal. Em cada português que é visto lá fora, estão todos os portugueses.
“Sou um povo que quer o mar que é teu;”
Vamos lá para ganhar! É sempre para ganhar! Nem que seja a feijões é para ganhar!
“E mais que o mostrengo, que me a alma teme”
Acima de todos os medos que possamos ter, como qualquer Cabo das Tormentas, ou outra qualquer tormenta que nos assole a alma.
“E roda nas trevas do fim do mundo,”
Podem acontecer coisas mesmo más!
“Manda a vontade, que me ata ao leme,”
O que me faz estar aqui,
“De El-Rei D. João Segundo!”
É a vontade do meu soberano. A minha, a nossa!

Hoje não há um Rei, e ninguém nos manda sair de Portugal, mas temos de ter sempre presente, que temos de honrar os nossos antepassados e os seus feitos. Não estaríamos aqui desta forma se não fossem eles. Nos Jogos Olímpicos da Grécia Antiga, os louros eram entregues ao soberano, depois da glória alcançada. O desempenho desportivo de uma nação é um bom espelho do desempenho enquanto nação. Infelizmente o desempenho desportivo de Portugal não é brilhante. Para alguns, de manhã está-se bem é na caminha, para outros só se está bem, depois de esmurrar um árbitro, mas felizmente não somos todos assim. O Sr. Ronaldo, com certeza não chegou lá, sem horas infindáveis de dedicação e trabalho. Noutro campo, a Mariza não espalha magia pelo mundo sem esforço. São, ambos, grandes embaixadores de Portugal no mundo. Não foi sorte…
Para terminar, o Sr. Dias, que queria sempre mais, acabou por morrer nas Tormentas, em 1500 a acompanhar a expedição do Pedro Álvares Cabral. Ah, que esse Dias era teimoso!

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Hic Deum Adora!*

O ser humano é o animal que domina o planeta. É a espécie que na evolução Darwiniana, se tornou mais apta para enfrentar o meio. Algumas limitações, como a falta de guelras, não nos permitem sobreviver em alguns meios, mas ainda assim, somos o animal mais completo. Podemos perguntar porquê. Alguns dirão que foi Deus, no entanto, eu diria que foi pura sorte. Se outras espécies tivessem evoluído de outra forma, nós seríamos subjugados por elas em menos de nada. Por exemplo, se as formigas fossem um pouco maiores, o planeta era delas. Um planeta com formigas do tamanho de um sapato seria facilmente dominado, e as restantes espécies, nada valeriam perante esta ameaça.

É certo que a espécie humana desenvolveu um engenho único, através do domínio de ferramentas, e criação de outras, que permitem enfrentar dificuldades. A capacidade criativa do Homem superou quase tudo, permitindo a este fazer coisas espantosas como voar. Mas perante isto, qual terá sido a maior invenção do Homem? Muitos dizem que terá sido a roda, ou o fogo. O fogo não é uma invenção, o fogo existe enquanto reacção química, as descobertas terão sido os instrumentos para o controlar. A meu ver, as maiores invenções humanas foram Deus e o dinheiro, e pela mesma razão (algumas pessoas estarão neste momento chocadas). Ambos são grandes facilitadores de vida e foram factores chave em termos de desenvolvimento civilizacional. Deus explica o inexplicável, tudo aquilo para o qual o ser humano à primeira vista não consegue arranjar uma causa. “Foi Deus!”. Eu não estou a dizer que Deus não existe. Aliás, se Deus não existisse não estaríamos a falar d’Ele. Por exemplo, o periquitélio (palavra esdrúxula) não existe. Ninguém consegue conceber na sua cabeça um conceito de periquitélio (podem ir ver ao Google). Não se vê ninguém a falar desse conceito que não existe. O que eu digo é que Deus não existe em Si, mas sim em nós. Não existe uma entidade lá em cima a olhar por nós, mas existe uma pictorização de algo nas nossas cabeças, diferente em cada cabeça, que significa Deus. Há correntes filosóficas que defendem que o conceito de Deus é inato. Nascemos com ele na cabeça. Não creio que seja verdade. A marca Coca-cola é dos símbolos humanos mais reconhecidos a nível planetário, a par com a cruz de Cristo. A Coca-cola anda por cá desde 1886, com orçamentos de publicidade gigantescos. Mas a Igreja anda cá há milhares de anos, com um esforço de marketing ainda maior, entranhado no desenvolvimento civilizacional, no poder, na cultura, arquitectura, arte e em quase todos os campos da vida social. São tão inatos, um como o outro.

Como terá sido inventado Deus afinal? Eu não estava lá, mas para mim, parece-me que terá sido com um evento natural inexplicável à data. Um trovão que incendiou a selva, ou outro fenómeno da mesma envergadura. Dois hominídeos ainda longe de terem desenvolvido uma linguagem: um terá grunhido para o outro em interrogação, e o outro contra-grunhiu qualquer coisa, que quererá ter dito, ou “não sei”, ou “é o acaso”. O primeiro hominídeo terá interpretado mal e terá assimilado aquilo como uma força grandiosa divina exterior a nós e criou-se o conceito de Deus. Depois de pequenos e grandes ajustes, foi passado de pais para filhos, chegando aos dias de hoje. Forças exteriores não existem. O Bem e o Mal existem, mas em nós.

O dinheiro, esse outro grande facilitador de vida, permite-nos ter acesso a níveis de bem-estar que de outra forma não seriam possíveis. Não digo o dinheiro enquanto forma de riqueza, mas o dinheiro enquanto instrumento. As notas e moedas constituem ferramentas geniais do ponto de vista de acesso a bens. É, ainda hoje, o maior acelerador do processo civilizacional.

Antes de escrever o texto, periquitélio não aparecia no Google. Agora, depois da publicação, pode ser até que apareça e já tem significado. É aquilo que serviu para explicar a existência de Deus, o que dito assim, parece uma coisa muito importante!

*Procurem na net!

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

O Trabalho Liberta!

Há eventos que são celebrados no nosso calendário que me causam alguma estranheza. O dia 8 de Março, dia Internacional da Mulher, é um deles! Será que não são todos os dias, dias de homens e de mulheres?! Ou os homens têm direito a 364 dias por ano e cedem gentilmente um dia para as suas companheiras, mães, irmãs e avós?! Em alguns países é mesmo dia feriado. Outro dia particularmente interessante é o dia do trabalhador. Será que em todos os outros dias é o dia de quem não faz nenhum? Por oposição ao dia do trabalhador, podíamos ter o dia do deputado! Até podia calhar ao Domingo, que ninguém dava pela diferença…

Mas o dia do trabalhador e o dia do deputado seriam criados pela mesma categoria de pessoas, os políticos. O que é então um sindicalista, senão um político disfarçado? Nem sequer é muito bem disfarçado, pois quase todos têm militância num partido mais ou menos à esquerda. Depois, o engraçado é que um sindicalista normalmente é uma pessoa que não é o melhor exemplo no que toca a trabalho. Defende os direitos dos trabalhadores, e faz disso carreira! Não seria melhor contratar uma pessoa que realmente conhecesse os problemas de quem trabalha? Por incrível que pareça, nem fazendo do sindicalismo carreira, se tornam peritos! Basta ver a deterioração do poder de compra dos Portugueses, para ver que esses senhores andam a fazer um péssimo trabalho há cerca de 34 anos. E são sempre os mesmos! As centrais sindicais, grandes conquistas de Abril, não parecem ser das instituições mais democráticas, ou não fossem elas uma parte importante da luta comunista, esse partido tão democrático…

A UGT (apoiada por partidos menos à esquerda) tinha o senhor Torres Couto, que foi indiciado num esquema de meter dinheiros europeus ao bolso. Utilizou a táctica Felgueiras, não em toda a sua amplitude, porque se demitiu, mas estava no Brasil aquando da leitura da sentença. Agora anda por lá o senhor João Proença, que sendo UGT, faz panelinha com o Sócrates. Na CGTP, desde que eu me lembro, que quem manda lá, é o senhor Carvalho da Silva. Profissão: Planificador de Trabalho! Digam-me lá, o que faz um planificador de trabalho? Planifica o trabalho?! Mas não é o dele, com certeza! As centrais sindicais não serão uma forma de controlo das massas, à semelhança de outros instrumentos sinistros de regimes menos democráticos? Os partidos é que as controlam e todas têm uma estrutura hierárquica tão vasta, que conseguem agradar a um elevado número de pessoas, e mantê-las na ordem. No fundo não interessa muito que elas pensem, a lei garante-lhes uns dias de acção sindical, que normalmente são colados aos períodos de férias, e estão todos felizes. Já repararam que até as greves, aparecem, também elas, quase todas coladas aos fins-de-semana? Então, a carreira de dirigente sindical é, ou não é, um grande tacho?

Trabalhar dá muito trabalho!

Só para rir, vejam, da Silva: O Planificador!
http://avenidadaliberdade.org/index.php?content=236

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Omelette, à Portuguesa!

Há quem diga que o 25 de Abril de 1974 foi o que fez com que houvesse lojas chinesas abertas nos 25 de Abril subsequentes. À partida não seria nada do outro mundo, não fosse um dia feriado. Mas porquê mais um dia feriado? Tirando as razões óbvias, o 25 de Abril não foi, nem mais, nem menos, que um erro de calendário. Era uma festa marcada para o 1º de Maio. As nossas tropas, depois de quarenta e tal anos de ditadura militar, fartaram-se de trabalhar e quiseram demonstrá-lo no dia do trabalhador e fazer uma greve, que já dura para cima de 34 anos. Dia do trabalhador, ou dia das mentiras (outro erro de calendário), já que é um dia em que quase ninguém trabalha, excepto os chineses.

Trinta e quatro anos de greve, não são seguramente para todos. É quase uma vida de serviço. Mais uns meses, e já está na altura de pôr os papéis para a reforma (da greve) e voltar a trabalhar. Os mais jovens já deram o exemplo, e foram de ovos na mão para cima de uma ministra (já agora, o que é que nasceu primeiro, a galinha, ou o ovo?). Depois de terem acabado com o serviço militar obrigatório, a juventude sente uma nova necessidade bélica, e extravasa desta forma. Isto é apenas um pequeno aviso, mas pode ser que pegue moda. Já estou a imaginar as visitas ministeriais, sempre com senhores com bancas de ovos, (em que os podres são os mais caros) para livre arremesso às comitivas. Os ministros terão de envergar indumentárias à prova de ovo, com capacete e óculos de protecção (imaginar o Sócrates de capacete…). Os produtores de ovos vão ficar milionários e a União Europeia vai ter de liberalizar as quotas de produção. O parlamento vai ter de fechar um dia por semana para desinfestação de salmonela, o que no fundo, não fará qualquer diferença…

Obrigado aos senhores de Abril, pois sem eles não haveria lojas chinesas em Portugal! Há muitas pessoas que pensam que nunca mais vai haver revoltas, porque chegámos à democracia, como se fosse o fim da linha. Estamos na União Europeia, e como tal, estamos protegidos de todo e qualquer tipo de revolta social. Será?! A dinâmica das sociedades sempre foi feita à base de conflito. As revoltas abanam tudo e a vida recomeça de outra forma. Certas maiorias, conquistadas democraticamente, começam a cheirar mal (como os ovos podres), e impera uma necessidade de renovação, já que a lei é estática e impõe grandes períodos fixos de legislatura. Já que não há mudanças na classe governativa, nem mesmo a nível ministerial, cabe a alguém afastar a mediocridade do sistema. As sociedades corrigem-se a si próprias e criam anticorpos para combater determinadas maleitas! Funciona mais ou menos como a “mão invisível” de Adam Smith. Como o Sr. Presidente da República não se mexe, as galinhas estão já a preparar-se e a acelerar os ciclos! Os produtores de ovos têm já unidades de stock em barda a apodrecer, para acrescentar valor ao seu produto! Estão neste momento a ser treinadas milícias de arremesso! Há milhares de voluntários!

Não há, mas podia haver... Lembrem-se: o objectivo supremo da guerra é a paz!

P.S. – Os ovos vieram primeiro. No tempo dos dinossauros já havia ovos, mas não havia galinhas. As galinhas apenas chegaram alguns ovos mais tarde…

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Quem fala assim não é gago!

O ser humano é um ser comunicativo. Há outros animais que comunicam, mas nós fomos os únicos a desenvolver códigos, que variam consoante as tribos, e variam mesmo, de grupo para grupo dentro da mesma tribo. Ora, a tribo dentro da tribo que desenvolveu a forma de comunicação mais bizarra é, sem dúvida, a tribo parlamentar. Porque é que aqueles senhores falam daquela maneira? Mais ninguém fala assim! Será que é para parecer que leram Eça ou Camilo? Toda a gente sabe que não! O único que leu, foi o Pacheco Pereira. Mas esse deve ter, anotados e catalogados, todos os erros gramaticais e sintácticos dos grandes clássicos da literatura portuguesa. Uma obra de grande interesse literário… Todos queremos saber como Pacheco Pereira escreveria o “Amor de Perdição”.

A oratória parlamentar é única. Em mais parte alguma se fala assim. Não há grupo de trabalho que trabalhe, que comunique como eles o fazem. Nem noutros grandes centros de decisão! Ou as Universidades!: Eu já estive em sessões, em anfiteatros com mais de duzentas pessoas, em que o orador foi primeiro-ministro de Portugal, e ele não falava daquela maneira! Até porque, como quem fala assim parece que está a mentir, ninguém o levaria a sério e abandonariam a sala em pouco tempo.

Depois há os deputados-gongo. Aqueles, que nunca ninguém viu discursar, mas que são essenciais para o bom funcionamento da fauna parlamentar. São os que, volta e meia, mesmo sem saber o tema da sessão, gritam: “Muito Bem!”, ou “Sr. Deputado!”, impedindo que os colegas mais incautos cometam o erro de adormecer perante as câmaras de televisão. São exímios no que fazem, disso podem gabar-se. Existe uma divisão natural do trabalho dentro da Assembleia. Todos têm um papel a desempenhar.

Mas como serão aqueles espécimes na vida real? Na vida íntima, privada, quando não precisam de estar a fingir… Será que falam da mesma maneira? Como será o senhor Sócrates, quando está no bacio e descobre que lhe falta o papel higiénico, já depois da obra feita? Será que fala da mesma forma nasalada e em falsete? Eu acho que sim, (ler com guinchos) “traz-me um rolo porreiro, pá!”; Já Manuela Ferreira Leite deve falar pelos cotovelos, tem ar de galhofeira; O senhor Louçã fala exactamente da mesma maneira, mas sem açaime; A Odete Santos, como pessoa genuína que todos conhecemos, fala da mesma forma entaramelada; O Paulo Portas a pedir um pequeno-almoço: “Eu solicito um galão: café, leite e açúcar! E um croissant misto: croissant, queijo e fiambre!”. Será que estes senhores ainda não perceberam que ninguém os respeita se continuarem a falar daquela maneira? Nós, os não-políticos, já começamos a ficar fartos de tantas pantominices, tretas e vigarices de toda a espécie. Ainda por cima, fazem-no de forma coloquial! Respondendo na mesma linguagem: “Senhor Deputado, colóquio, num sítio que eu cá sei!”

sábado, 8 de novembro de 2008

Super Menu

Pensando como Lavoisier, nós somos aquilo que comemos. A nossa dieta, dita “dieta mediterrânica”, é reconhecida pelos entendidos na matéria, como uma alimentação saudável e equilibrada que nos livrará facilmente da obesidade, uma vez regrada. Nos anos 80, não existia qualquer tipo de fast-food no nosso país. O mais parecido seriam talvez os pregos no pão e a sandes de torresmos, e na versão take-home, os frangos no churrasco.

Chegados os anos 90, aparecem os hamburgers, baguetes, pitas e claro, as pizzas. O que é então uma pizza, senão pão com queijo e tomate?! Mas não será que pão com queijo e tomate é comida de pobre? Depois é adicionada com outros condimentos, que dão sabor, mas que podem ser encontrados em qualquer parca despensa. (só uma nota: a pizza mais barata, de uma dessas casas famosas, custa 6 euros. Não é assim tão pobre…) A nossa gastronomia, que qualquer português se orgulha de ver como a melhor do mundo, é mediterrânica, e é também rica em pratos de pobre. Senão vejamos: O que é um arroz de polvo, ou de marisco, ou de pato, ou de outra coisa qualquer, senão um prato onde com pouca matéria-prima, se põe mais um copo de arroz e até se pode receber mais um ou dois convidados? A açorda não é nada mais, nada menos do que pão velho com água e aditivos! Uma sopa é água com condimentos, que faz um grande repasto! A velha fábula da sopa de pedra é prova disso mesmo. Um prato que nasceu da avareza...

Há pessoas que se queixam de que a fast-food é a principal causa de obesidade. Mas será que a obesidade é um problema assim tão grave? Ainda há 50 anos, na Europa havia fome! Ainda hoje, há zonas do globo com fome! Estamos ou não estamos melhor?! Eu confesso que nunca passei fome na vida, mas eu não preciso de passar fome, para ver que a obesidade é melhor. Seria como se me perguntassem se gosto de bosta. Sem provar, e sem saber de que espécie animal é proveniente, eu posso desde já afirmar, sem dúvida nenhuma, que não gosto!

A minha avó costumava dizer que no futuro, (“no ano 2000…”, dizia ela) bastaria um comprimido por dia para fazer face às nossas necessidades nutricionais. Mal ela sabia que iriam inventar o actimel. Aqueles 108 ml. (porquê 108?) com dez mil milhões de L. Casei não sei quê, que salvam a vida do cliente... (Ah!, claro, são 92.592.593, por mililitro! Mais, seria excessivo…) Daqui a uns anos bastará um actimel para o dia todo! Será a dieta moderna dos países mais ricos e desenvolvidos. Seguramente dispendiosa, terá um sistema de regurgitação duodenal para manter o estômago a trabalhar durante as 24 horas do dia, e todos os mil milhões de mil milhões de coiso, necessários à sobrevivência humana. Depois, uns goles de água “fibras”, para cortar no apetite! Repisando o tema da bosta, a única vantagem seria poupar no papel higiénico…

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

E Viveram Felizes Para Sempre...

O casamento é uma coisa sagrada. Um sacramento. Uma união de duas pessoas que se amam, com o objectivo supremo de constituir família. Aquando da fundação do Reino, as coisas eram feitas mais aos olhos de Deus, e com o passar do tempo, chegamos aos nossos dias em que se trata apenas de um simples contrato. Independentemente das crenças, e creio que D. Afonso concordaria comigo, não estamos melhor. Entretanto, chega o divórcio…

Do latim divortium, (podia bem ser divertium!) este outro contrato, começa a proliferar, havendo nos dias que correm uma taxa de divórcio de 48% no nosso país. É quase como atirar uma moeda ao ar! Há países mais “desenvolvidos” em que as taxas são da ordem dos 65%! Quase dois terços! Quer dizer que houve um terço que teve azar, e a morte chegou antes que eles tivessem oportunidade para se divorciar!

Fiquei espantado, mas há vários sites exclusivamente dedicados a divórcios! Mas divórcios online! Fará mais sentido, uma vez que já não vivem juntos?! Divorciam-se na net!? O meu link preferido é “recomendar este site a um amigo”. E porque não ao marido!?

Num futuro mais ou menos próximo, o sistema de vida social, como era o dos nossos pais, vai acabar. Como tudo é descartável, um ser humano vive com outro durante uns anos, até se fartar. Depois troca, e faz mais uns anos. O casamento como o conhecemos vai deixar de fazer sentido. A minha sugestão é uma reforma do contrato de casamento. Que o princípio da liberdade contratual possa permitir ao casamento que se torne um contrato a termo. Por exemplo, um contrato de três anos, prorrogável continuamente por períodos não inferiores a um ano, quando não denunciado por um dos contraentes com pré-aviso (carta registada) de antecedência mínima de trinta dias (um mês deve chegar). Vai acontecer: "Esqueci-me de pôr os papéis! Vou ter de aturá-la mais um ano!" Seria como os passes dos jogadores de futebol: “Assinei por três anos!”. Hoje ninguém quer ninguém a envelhecer ao lado, por isso vai-se fazendo reciclagem conjugal até estarmos tão velhos, que a única pessoa que nos pega também tem a nossa idade… Com o passar dos anos, a Igreja, que também vai perdendo clientes, vai ter de se adaptar a esta nova realidade e também terá de reformular a sua visão do sacramento casamento. Se assim não for, daqui a uns anos, numa igreja, poder-se-á ouvir o padre em liturgia: “Até que o divórcio vos separe…” – Pelo menos é o que ele vai estar a pensar!

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Um Forte Aplauso!

O comportamento humano em grupo é cheio de pequenos pormenores deliciosos. Um dos meus preferidos é as palmas depois de uma aterragem… Eu interrogo-me sobre a causa das palmas. Será da confortabilidade? Nunca viajei em 1ª classe, mas as palmas vêm na sua maioria da classe turística, que posso afirmar não ser o sítio mais confortável para viajar. Da comida, não preciso de justificar, não é de certeza. Será dos decotes das assistentes de bordo? Podia ser, mas eu lembro-me bem de ver demasiadas mulheres a aplaudir para que fosse isso. Será então que se aplaude toda a experiência de voo, desde as esperas e demoras, à má comida, cadeiras desconfortáveis, possíveis enjoos, crianças a chorar, turbulência, etc.? Só se for porque chegou ao fim o sofrimento!

Esperem aí; querem ver que as palmas são para o piloto e a sua bela aterragem? Mas ele não se encontra apenas a fazer o seu trabalho? Se ele o fizer mal, a sua vida não dependerá também disso? O Sr. Superman diz que, estatisticamente, voar ainda é a forma mais segura de viajar, mas acidentes acontecem, e sobreviver a um é uma verdadeira lotaria. Aliás, deve haver no mundo mais pessoas que ganharam a lotaria, que as que sobreviveram a um acidente de avião (não sei se é verdade, mas vou confirmar e depois digo).

Ora então aplaude-se o ofício do Sr. Piloto. Mas se assim é, porque não aplaudir outras profissões tão esquecidas neste mundo? Um motorista do 50, se chegar a Algés com as carteiras dos clientes intactas merece ou não merece um aplauso? Até parece que estou a ver: um taxista do aeroporto a levar um cliente para o hotel – Clap! Clap! Clap! Clap! – Um polícia a passar uma multa de trânsito – Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! – Os senhores da EMEL a levarem-me o carro – Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Seríamos todos mais felizes! Alguns sociólogos mais teóricos poderão estar a pensar que isto é uma boa forma de motivação dos recursos humanos de qualquer organização. Imaginem: a Loja do Cidadão poderia transformar-se num autêntico festival, com os vários pisos, à vez, em animação… Clap! Clap! Clap! As Finanças! Clap! Clap! Clap! Clap! Os Tribunais! “Apanhei 10 anos!” Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Os Funerais! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap!

Os únicos que ficariam de fora seriam os fadistas de Coimbra. Para quem não sabe, no fado de Coimbra não se bate palmas, o que eu acho errado, já que o trabalho deles é bem mais agradável que o dos senhores da EMEL. Para Coimbra, poder-se-ia adoptar um ritual diferente da palma, mas mantendo o silêncio. Ou isso, ou parar de bater palmas em aviões! O piloto até nem faz grande coisa! Os computadores é que fazem quase tudo! Se até o MacGyver conseguiu aterrar um avião a receber instruções via rádio, é porque não é assim tão difícil! Tenho uma sugestão: a banda sonora da aterragem passa a ser fado de Coimbra! Depois é fácil…

sábado, 18 de outubro de 2008

Quem diz é quem é!

Desde pequeno que há uma coisa que me faz confusão no futebol. O fora-de-jogo. Há uma jogada de ataque; o avançado está isolado; correu mais que toda a gente; foi mais lesto e expedito que toda uma defesa, e depois há um senhor, que levanta uma bandeira e outro que apita e pára tudo! Depois deste acontecimento, normalmente as mães desses dois senhores são reapelidadas. Eu, desde que me lembro, que jogo futebol com os meus amigos e não havia nada disso. Um atacante correr mais que a defesa é bom, e se tiver no que vulgarmente se chama de “a mama” é maravilhoso para quem ataca, porque normalmente resulta em golo – o objectivo supremo do jogo! Podem então fazer ideia da confusão que isto faz na cabeça de uma criança.

Cerca de vinte anos mais tarde, por incrível que pareça, a confusão é a mesma. Quem terá sido o agente criador dessa brilhante lei que é a do fora-de-jogo? Nas regras não consegui perceber, mas depois de pensar um bocadinho sobre a questão, tornou-se-me óbvio. Senão reparem: Século XIX, a juventude a dar pontapés numa bola de couro, numa Inglaterra chuvosa e enlameada, com uma indumentária pouco adaptada à novidade que é o jogo. Lá atrás está um menino, branco como a cal, com ar de quem nunca viu o Sol, ruivo, obeso, com as faces rosadas do cansaço e a perder. Farto de ser ultrapassado pelo menino mais pobre, que comendo menos, se torna mais ágil e apto para qualquer actividade física. “Assim não vale! Não brincas mais!” grita o puto mimado. Sendo filho do industrial da zona, é o dono da bola, como tal, é soberano. (Uma pequena dúvida sobre riqueza: Porque é que, padecendo do mesmo mal, os meninos quando são ricos, são disléxicos, e quando são pobres, são burrinhos?) Eis a raiz do mal que depois alguém baptizou de fora-de-jogo.

Mas o futebol é um jogo virtuoso. É um jogo de destreza física e psicológica, e sendo um jogo de equipa, dinamiza o espírito de grupo de uma forma que penso ser positiva. A não ser quando se trata de competições oficiais, em que vale tudo. De facto, desportos há, em que mesmo envolvendo muito dinheiro, como a Fórmula 1, não há pejo nenhum em voltar atrás numa decisão de arbitragem, ou mesmo penalizar os competidores a posteriori, já que os olhos em directo não vêem tudo. No futebol, à vista de todos, há golos com a mão, golos que não são golo, golos mal anulados, penalties mal assinalados, toda uma série de aldrabices. E claro, os foras-de-jogo. Depois, a mãe do Sr. Árbitro muda de profissão. E, pensando um pouco, quem é que escolhe a carreira do apito? São insultados e ameaçados de porrada desde pequeninos. Não percebo.

Em Portugal, por exemplo, é de facto estranho, que em cerca de 100 campeonatos, apenas tenha havido três campeões diferentes, com excepção do Belenenses nos anos 50 e mais recentemente o Boavista, por pura distracção. Mesmo assim, o Sr. da Costa até teve azar. Está lá há cerca de 25 anos, ganhou quase 20 campeonatos, e no único jogo combinado, apanharam-no! É azar! Mas descansem, que ele não faz nada de novo; não inventou nada! Já se fazia antes! Ainda se faz, mas ele faz melhor! Lembrem-se que quem inventou tudo foi um menino ruivo e obeso… O espírito dessa criança ainda impera no futebol dos nossos dias. Não se esqueçam que esse menino proporcionou momentos de felicidade a muitos adeptos. Tudo começou com um simples fora-de-jogo.

P.S. – Acho que se devia mudar o nome da lei. Não querendo ser disléxico, (prefiro burrinho) chamar-lhe-ia foda-se-jogo.

sábado, 11 de outubro de 2008

Não Apimbalharás!

Há pouco descobri que existem em Portugal cerca de 13 milhões de cartões de telefones móveis activos. Se descontarmos os recém-nascidos e algumas pessoas doentes ou idosas que possam não se ter adaptado à tecnologia, teremos cerca de um telemóvel e meio por cabeça, ou talvez mais. Ou seja, eu e o Sr. Leitor temos três! Como é isto possível? Será que o ser humano é um bicho assim tão sedento de comunicação? Ou são só os portugueses?

Alguns dirão que foi a estrutura de mercado que induziu a esta situação. Três operadoras, num país tão pequeno, tiveram de fazer campanhas em massa para continuar a expandir negócio e vender mais que as necessidades. Outros dirão que a causa se encontra nos tarifários inter-operadoras. Como é muito caro falar para clientes de outras operadoras, mais vale ter outro cartão activo de outra rede com um tarifário mais simpático.

Ambos podem ter razão, mas no essencial, o que tornou isto possível foi um apimbalhar do uso do telemóvel! (O verbo apimbalhar: Eu apimbalho, tu apimbalhas, ele apimbalha…). Os meios de comunicação e a publicidade conseguiram de uma forma extremamente hábil transformar o uso do telemóvel numa coisa “pimba”. Neste momento está a passar-se exactamente o mesmo fenómeno com a internet e a proliferação dos Magalhães e de outros computadores portáteis para estudantes de quase todas as idades. (Já agora, uma dúvida, se os pais de um aluno tiverem dinheiro, são obrigados a comprar um Magalhães?, ou o seu filho pode ir para a escola com um computador normal mais avançado?).

O nosso passado recente é farto nestes fenómenos de massas. Temos o movimento da libertação de Timor Lorosae, em que milhares de pessoas saíram à rua vestidas de branco, ou quando aquele estudante foi esfaqueado, à porta de casa, ao pé do Instituto Superior Técnico, e acabou por falecer, e as pessoas saíram à rua de luto. Temos a Expo’98, e claro, o Euro2004. Eu penso que devo ter aderido a quase todas. Eu sou Pimba! Estes episódios, uns com fundamentos mais nobres que outros, tiveram essa grande ajuda dos meios de comunicação social, que através de manobras publicitárias os tornaram um sucesso absoluto.

E eu pergunto-me: por que não fazer uma manobra similar concertada e tentar tornar Portugal num país mais culto. O país de Camões, de quem todos fogem, na escola. Pôr um país inteiro a ler, sem ser A Bola, O Record ou o 24 Horas. Ou mesmo a aprender a tocar um instrumento musical. As despesas anuais em telecomunicações representam cerca de 5% do PIB, ou seja, 8 mil milhões de Euros. Por que não pôr Portugal a gastar metade em livros ou instrumentos musicais, mesmo que isso fosse através de uma apimbalhação destas acções? Do pior que podia acontecer era começar a ouvir os vizinhos a ensaiar Tony Carreira ao violino. Pior, só mesmo Delfins! Tornar-nos-íamos num país muito mais interessante! Já estou a imaginar as conversas nas tascas: “Ó Fanã, a minha Superbock apenas está medianamente refrigerada!”, ao que o Fanã respondia: “F#%&-se! Já enderecei uma reclamação às entidades responsáveis!” Reparem que eu mantive o “F#%&-se!”, porque mesmo com o Sr. Fanã mais culto, uma taberna será sempre uma taberna! Até as discussões sobre futebol!... “ O Nuno Gomes ontem teve um desempenho irrepreensível! Foi exímio na execução!” – resposta – “Sim, mas a fadiga era notória no seu semblante.”

Mas depois o que é que faríamos às pessoas que trabalham nas redacções do Metro ou do Destak? E aos directores de programas como As Tardes da Júlia? Ou a todos os membros da Tertúlia Cor-de-Rosa, do programa Fátima, da SIC, sem excepção? A publicações como a Maria, TV7Dias, Ana, Nova Gente, VIP, Caras, e porque nunca é demais repetir, o 24 Horas? Teríamos de ensinar toda esta gente a ler?! Isso revelar-se-ia uma tarefa muito mais difícil. Não, definitivamente estamos melhor assim. Desculpem o devaneio.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

O Primeiro Contrato

Muitos falam da profissão mais velha do mundo, mas ainda não ouvi ninguém a debruçar-se sobre quem terá sido o autor de tão brilhante invenção. Não digo o nome da personalidade, pois terá sido numa altura da História onde os humanos apenas começaram a ser humanos e a comunicação era feita à base de grunhidos, mas a minha questão prende-se com homens ou mulheres. Esse ofício, que trouxe aumentos de bem-estar a tantas pessoas, terá sido inventado por um homem, ou por uma mulher?

Depois de fazer uma análise pensada sobre o problema, deparei-me com três situações possíveis que possam ter originado essa função, e em todas elas, é impossível provar qual foi a verdadeiramente pioneira:

1. O chefe do clã precisava de algum bem do outro clã e utilizou esses serviços para o obter. Os chefes seriam certamente do sexo masculino, e assim teria sido o homem a inventá-lo.

2. A mulher, para sobrevivência própria ou das crias recorreu a essa via para subsistir. Aqui terá sido a mulher a inventar, por necessidade. “a necessidade aguça o engenho”.

3. Nesta terceira situação é dúbio quem terá sido o autor. Eu chamo-lhe o acaso da selva. Há um detentor de um objecto. Em princípio será um alimento, pois ainda não estamos a falar de bens materiais, e a noção de dinheiro ainda não foi criada. Um homem e uma mulher cruzam-se e um deles vai levar a melhor. Possivelmente o homem, por ser mais forte, mas mesmo assim é de análise inexacta e é impossível aferir sobre quem verdadeiramente tirou mais vantagem da situação.

Esta audaz criação, mudou a humanidade. Este é talvez o primeiro conflito civilizacional que terá abordado questões de direito, o que sem linguagem e comunicação verbal e uma mínima organização social, teria de ser resolvido pela lei da força. Desenvolveu o comportamento da sociedade enquanto grupo, no que toca a segurança das tribos, e em consequência terá ajudado a desenvolver a linguagem, uns primeiros códigos inteligíveis apenas por membros da mesma tribo. No fundo foi um motor de arranque para o processo civilizacional no qual nos encontramos hoje.

Para quem só pensa em putas, a profissão mais velha do mundo é a gatunagem! Antes de pensar nos prazeres da carne e negociá-los, era necessário andar de barriga cheia, e para tal, já que caçar dá um certo trabalho, roubar quem caça parece-me uma decisão mais acertada. Possivelmente muito antes ainda da idade de começar a pensar em fêmeas. No entanto, a prostituição terá sido, a par com a caça, das primeiras actividades económicas socialmente lícitas. Ainda que tácito, com inexistência de dinheiro, em troca de protecção ou nutrição, é a génese do contrato como o conhecemos hoje.

Pensando bem, também foi uma grande invenção!